Do que você lembra do seu pai?

1995- Tenho quatro anos, coleciono brinquedos do Kinder Ovo que tem um leão como personagem, espero ansiosamente o dia que ele chega de viagem e trás mais um, junto com minhas irmãs guardo em caixas e brinco sempre que tenho vontade, moro em uma casa linda, muito confortável, com piscina e casinha de bonecas, ele passa dias fora, mas quando está conosco não há espaço nenhum a ser preenchido.

1997-Já estou na escola e terá uma competição de dia dos Pais, é uma gincana onde filhos e pais participam juntos, só tem um problema, o meu tem três estudando aqui, então precisa correr no saco com uma, acertar a bola no alvo com outra e fazer gols com a terceira... O dia passou rápido, saímos com alguns pequenos inimigos na escola e mais de 10 melhadas no peito dele.

2001-Domingo de manhã, acordo e já consigo ouvir do meu quarto o som de Porca Véia tocando lá fora, a música é Lembranças, ele está assando carne, para as vezes para assistir ao esporte espetacular, minha vó faz maionese, e minha mãe já está pondo a mesa, ele nos serve, não porque é garçom, mas porque sente prazer em nos ver felizes e elogiando sua carne.

2005-Sou uma adolescente cheia de amigos, sempre que posso vou ao baile com a autorização dos meus pais, ele nos busca (eu minhas irmãs e minhas amigas), vez ou outra as 2:00 da madrugada, mas geralmente as 00:00 que era nosso tempo limite, sem reclamar e sempre com muito cuidado conosco , minhas amigas por vezes precisam mentir para poder ir, eu nunca.

2007-Estamos ao redor do fogão a lenha nós cinco, todos de pijama feito pela mãe, nada combina muito, já que ela usa retalhos para economizar, a fase de vacas gordas passou, estamos em meio a uma crise financeira, nem ligamos pra isso, o pinhão está gostoso, ele faz questão de esfriar em sua mão antes de nos dar aquele ESPECIAL como ele diz, escutamos mais uma vez as histórias de sua infância, por vezes com um pouco de drama, mas não somos nem loucas de duvidar de algo, vou dormir agradecendo a Deus pelo alimento, e imaginando quão dura foi a infância dele.

2010- Estamos só nós dois em casa, aluguei um filme chamado UMA PROVA DE AMOR , sentamos no sofá e vamos ver, estou com dor na garganta, segurando o choro, olho para o lado e ele está em pratos, choro sentido, choro de dor, estamos recentemente sozinhos, nos recuperando da separação, eu o abraço, choramos juntos e retornamos ver o filme após enxugar as lágrimas.

2011-É madrugada o telefone da Vó toca, acordo com gritos, ele se foi, um padrasto que foi mais Pai e mais Avô que muitos, não havia nenhum laço de sangue, só amor, bondade, alegria da risada mais linda que eu já ouvi, juntos vejo meu pai e padrasto chorando a beira de um caixão, nosso Zeca disse adeus.

2012-Vou me casar no sábado, é quinta e eu estou arrumando minhas roupas, guardando tudo e encaixotando aquilo que não é mais parte da casa agora, ele e Lu estão no sofá aos prantos, ele me abraça diz que está feliz, e que se caso eu não me sinta bem tenho para onde voltar.

2014- Estamos ali naquela tarefa diária na loja, mil coisas para resolver, estresse tomando conta e no meio do caos, ele para e mais uma vez me conta a história de quando embalava amendoim, da sua primeira Kombi, e eu mesmo entediada por já ter ouvido, escuto novamente e me pergunto como pode alguém ser tão chato e incrivelmente legal ao mesmo tempo.

2015-Pela primeira vez lhe dou um presente de dia dos Pais, faço uma carta e coloco junto no embrulho, esperei cinco anos pra fazer isso, ele chegou na minha família em 2010 mas eu não sentia a menor vontade de agradá-lo, pelo contrário o amaldiçoava, pensava comigo como era possível alguém vir só para trazer o mal, áaa o tempo, o tempo é divino, escrevo a carta com olhar embaraçado de quem já chorou de raiva e hoje é de emoção, esperei para lhe dizer feliz dia dos pais, mas hoje disse com sinceridade.

2016- Ele passou por um baque, como de costume começamos a rezar antes do expediente, ele não aguenta solta o choro que estava guardado, o nosso durão também chora, todos se emocionam, todos o respeitam, todos o admiram. Subo pegar troco, pergunto se posso lhe abraçar, sinto a sua dor, e não consigo aguentar, as lágrimas correm sem que possamos conter.

2016- É agosto, mês dos pais e também do aniversário do pai dele, vamos até o Cerrito, rever a família, estar juntos dos seus, juntos vamos ao sítio em que tantas lembranças de bons momentos  de minha infância vem á tona, ele fala dos pássaros, dos pinheiros, conta histórias, e a noite jogamos dominó e comemos cuscus.

2017- Quero fazer fotos para o dia dos Pais, ele está carregando a mercadoria na Kombi, vejo que não cortou o cabelo, e penso que preciso falar pra ele ir no salão, afinal de contas ele é  meu único  pai que tem cabelo, paro e reflito, me questiono em qual momento deixei de odiá-lo e passei a ama-lo, não consigo lembrar, só sei que em meu coração não sinto mágoa, tento não chorar, vou lá fora e digo pra ele ir cortar o cabelo, ele diz que não está feio, eu sorrio. Ele é convencido e isso o torna mais engraçado.

Essas lembranças se misturam, umas com meu Pai de sangue Luiz, outras com meu Pai do coração, Adolfo. Tenho mais tantas em meu coração, não sei descrever o que sinto, nem como sinto, sei dizer que pelo Luiz são 25 anos de amor incondicional, desde que me lembro eu o amo e nem preciso me esforçar é tão natural, pelo Adolfo é construído, é respeito é reciprocidade  mas não deixa de ser amor.

Eu quero lhes dizer que se eu tiver 100 reais e der 50 para cada um deles, eu fico sem nada, mas se eu tiver 10 centavos de amor e der a eles, eu recebo 100 reais de amor no troco, consegue me entender? Porque o amor é o único bem que se multiplica por divisão.  

Um dia ao redor de um fogão, também contarei minhas histórias, e ouvirei as de meu esposo, talvez meu filho esteja de saco cheio de ouvir, mas eu não deixarei de contar que os avós dele me ensinaram muito e no outro dia farei um churrasco ao som de lembranças, se não a valsa gauchesca, talvez as lembranças do quanto tive sorte na vida.

Feliz Dia dos Pais.

 

heart